JAPURÁ – AM – Paróquia Nossa Senhora Aparecida

Prelazia de Tefé – AM – Norte I CNBB

O batismo de Jesus (Mateus 3,13-17) – Marcelo Barros

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Caríssimos Irmãos e Irmãs!

Em tempo muito privilegiado estamos nesta semana entre a Festa da Epifania
e do Batismo do Senhor, dois fortes momentos que nos convidam a abrir-nos
ao Mistério da revelação do Amor de Deus em Jesus Cristo, para com a
humanidade.
Em comunhão com os participantes, delegados/as representantes das Dioceses
e Prelazias de todo o Brasil no 13º Intereclesial de CEBs que está
acontecendo em Crato no Ceará queremos acolher a novidade e as surpresas
de Deus através do seu Espírito que perpassa a vida da Igreja nas
Comunidades Eclesiais de Base.

Seguem em anexo as riquezas das reflexões destes nossos fiéis irmãos
teólogos. Nesta edição segue também um texto do monge teólogo Marcelo de
Barros referente a festa deste domingo.

Desejo-lhes um bom cultivo espiritual e fecunda missão!
Com estima fraterna,

Ir. M. Liani Postai csc

Marcelo Barros, monge beneditino e assessor do CEBI, segue seu diálogo com a comunidade que nos deixou como herança o evangelho de Mateus. Na carta de hoje ele conversa sobre o significado do Batismo de Jesus.

Acompanhe!

(extraído de Conversa com Mateus – no prelo. Do mesmo autor, conheça: O Espírito vem pelas águas)

1. A proximidade do Reino no Jordão

Irmãos e irmãs da esperançosa comunidade de Mateus,

Talvez, no início, o relato de vocês começava pelo capítulo 3. “Naqueles dias…”. Isso parece com o nosso “era uma vez”, mas situando os acontecimentos, não em uma história de fadas e sim na história real. Muitas profecias bíblicas contêm essa frase: “Naqueles dias…” (Cf. Amós 5,18-20; Oseias 6,1-3; 9,7-9; Miqueias 4,6-7; Jeremias 4,9-12, etc.). Referem-se todas ao que os profetas chamavam “O Dia do Senhor”, ou o dia em que o Senhor virá instaurar o seu Reino.

Mesmo depois de familiarizado com o texto de vocês, ainda me surpreendo com o fato do Evangelho dizer assim tão claro que o reinado divino se manifesta não no centro da cidade, onde se expressam os reinos do mundo, mas no deserto e a partir de pessoas marginalizadas e excluídas da sociedade.

O centro desses dois capítulos (Mateus 3 e 4) é o relato do batismo (“e eis que…”). Esta cena é colocada antes de duas passagens opostas: o encontro de Jesus com João Batista (Mateus 3,5-15) e o desencontro com o diabo (Mateus 4,1-11). Depois, a narrativa resume toda a atividade seguinte de Jesus: ele chama e reúne discípulos, ensina nas sinagogas e cura toda doença e pecado (Mateus 4,18-25).

 

2. João Batista, o primeiro evangelista do Reino

 

Ao reler o testemunho do evangelho de Mateus sobre o profeta João, penso que uma realidade que estava por trás do relato de vocês é a presença de discípulos de João Batista nas comunidades da época do evangelho, ou na sua vizinhança. Vocês sentem a necessidade de lembrar que João foi profeta do Reino, assim como o profeta da consolação (o 2o Isaías; Is 40-55) que anunciou a volta do povo do cativeiro da Babilônia, e o grande profeta Elias ( ele se veste tal qual Elias – 1 Reis 1,8). Muitos judeus esperavam a volta de Elias como o profeta que antecederia a vinda do Messias. O evangelho coloca na boca de João o testemunho sobre Jesus de modo que ele mesmo esclareça que há uma grande semelhança entre os dois (João e Jesus), mas há uma diferença fundamental: “Eu batizo com água. Quem virá atrás de mim (como aquele que me segue, isto é, como discípulo) passa na minha frente” (Mateus 3,11).

João é apresentado como profeta enviado a pregar (kerissein). Sua missão se realiza no deserto da Judeia, distante dos centros sociais e políticos. Ele anuncia que o reinado (basileia) divino está perto ou próximo (engiken). Há uma dimensão de proximidade no tempo e no espaço (Mateus 3,2).

(…)

Jesus foi discípulo de João e recebeu dele a formação de profeta. João retoma a figura dos grandes profetas do povo. A ele vêm as autoridades religiosas e sociais de Israel (no tempo de vocês, os saduceus perderam o poder para os fariseus). Será que, contando a atuação do Batista no deserto assim próximo ao Jordão, vocês queriam mostrá-lo, de algum modo, ligado ao movimento dos essênios, a comunidade de sacerdotes e monges que, no deserto (Qunram) viviam um judaísmo mais radical e alternativo, contra o templo e os sacerdotes de Jerusalém?

Foi pelo rio Jordão que, segundo a Bíblia, os hebreus entraram na terra prometida (Josué 3,14-17). Então, o Jordão tem uma dimensão simbólica na história de Israel. Pelo batismo, era como se passasse de um império do mal (de Roma) ao reinado divino. O banho por mergulho (batismo) era comum entre os essênios e algumas correntes de judaísmo como um rito de purificação e de esperança num renascimento espiritual e social. Um tratado judaico (mishna) diz: “Se o banho por imersão (batismo) purifica os impuros, então, o Santo purifica Israel”. A palavra usada para significar “banho” (miqweh) tem duplo sentido: “banho e esperança”. Daí que o batismo de João podia ter um sentido de anúncio do Reino futuro.

 

3. O Reino de Deus se aproxima em Jesus no batismo

 

O relato faz Jesus vir da Galileia para receber o batismo.  Como isso poderia ser interpretado como uma dependência de Jesus com relação a João, vocês incluíram um diálogo entre João e Jesus: “Sou eu que preciso ser batizado por ti e tu vens a mim?” Jesus responde:  – “Deixa que se cumpra toda a justiça”. A ação divina passa pela etapa da ação de João para chegar a Jesus. Mais tarde, as autoridades judaicas de Jerusalém viram que ele ensinava no templo e lhe perguntaram: “Que autoridade você tem para fazer isso? (quer dizer: para agir como os antigos profetas que ensinavam na porta do templo). “Quem lhe deu essa autoridade?” (ou “quem fez de você um profeta?”) Jesus respondeu: “Vou lhes fazer uma pergunta. Se me responderem, poderei lhes dizer com que autoridade eu faço isso.

Quando João batizava, isso vinha de Deus, ou dos homens?”. Eles não quiseram responder e Jesus lhes respondeu: – “Então, eu não tenho como lhes explicar com que autoridade faço isso” (Cf. Mateus 21,23-27). Assim, Jesus esclarecia definitivamente que sua autoridade profética vinha do batismo de João. No Jordão, Jesus foi investido da missão profética e o próprio Pai o designa como o verdadeiro Messias que preenche a expectativa do povo. Se as pessoas não reconheciam a legitimidade desse batismo, não podiam reconhecer a missão de Jesus.

Quando Jesus foi batizado, “os céus se abriram”. Na época, havia uma forte consciência de que, depois da volta do cativeiro, por causa do fato de que Israel rompeu a aliança com o Senhor, “os céus se fecharam”. Deus guardava silêncio. Quando muito, podia-se apenas ouvir o eco da sua voz, mas não escutar a sua Palavra através dos profetas. “Não vemos mais sinais de tua presença, não há mais profetas e ninguém sabe até quando” (Salmo 74,9. Cf. também 1 Macabeus 14,41-46). Os profetas prometiam o tempo novo e maravilhoso no qual os céus se abrissem (Cf. Isaías 64,1; Ezequiel 1,1).

Muita gente estranha essa questão de representar o Espírito de Deus como uma pomba. Na tradição bíblica, a pomba é a imagem de Israel, a esposa do Cântico dos Cânticos (Cf. Cântico 2,14; 1,15 e outros). O que o Evangelho diz é que o Espírito desceu sobre Jesus suavemente, como uma pomba. Como o Gênesis dizia que “o Espírito pairava sobre as águas”. Mas, à medida que as comunidades interpretaram que o Espírito desceu em forma de pomba, para nós, hoje, é bom escutar esta interpretação que o Espírito vem na forma de Israel, isto é através da comunidade.

Poucas vezes, na Bíblia, Deus fala diretamente. Em geral, ele fala pelos profetas e profetisas. Aqui a voz divina identifica Jesus: “Este é o meu filho, o amado, em quem ponho minha afeição”. Esta palavra alude à profecia do Servo Sofredor (Isaías 42,1-5). O servo (pais) de Isaías se torna aqui (huios mou) meu filho. O ekkletos (escolhido) de Isaías se torna agapetos (amado) no texto de Mateus. Há quem visse no “filho amado” uma referência à passagem de Abraão levando Isaac, seu único filho, para o sacrifício (Gênesis 22). Por mais que esta passagem não seja histórica e possa ser questionada sobre a imagem de Deus que nos dá, ela foi, em toda a tradição judaica, usada como profecia do Messias. O batismo de Jesus reinicia uma nova época profética e de manifestação da presença do Senhor junto ao seu povo.

 

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